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Seção Sindical dos Docentes da UFV
Mineradoras tentam intervir em atividade da UFOP em caso de ameaça à autonomia universitária

A organização da XXII Semana de Estudos da Escola de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), que ocorre entre os dias 3 e 7 de fevereiro, está no centro de uma polêmica que coloca em questão a autonomia universitária.

Com o tema Construindo Pontes para a Inclusão, Diversidade, Desenvolvimento Sustentável e Inovação na Era da Tecnologia, o evento sofreu pressões de patrocinadores para evitar debates sobre temas essenciais no estado de Minas Gerais. Entre eles, estão os rompimentos de barragens de minério em Mariana (2015) e em Brumadinho (2019) e os seus impactos judiciais, sociais e ambientais, além da realidade das vítimas e das comunidades atingidas.

O que aconteceu?

A censura foi direcionada aos participantes da mesa-redonda intitulada Diversidade, Inclusão e Dignidade Humana: Avanços e Desafios para a Igualdade, solicitando que não fossem abordados os desastres causados pelos rompimentos. 

Um e-mail enviado pela organização do evento, em nome próprio e dos patrocinadores, pedia que os participantes evitassem tratar de temas como os “acidentes dos rompimentos das barragens de mineradoras”, além de questões judiciais, ambientais, aspectos sociais, a situação das vítimas e demais assuntos relacionados ao tema. O comunicado também informava que “a mesa será composta por um mediador, ou mestre de cerimônias, que irá conduzir a discussão e os trabalhos realizados”, tendo, ainda, a responsabilidade de “evitar qualquer polêmica, ou discussão fora do tema, e o poder de intervir em qualquer circunstância se for preciso, e irá controlar o tempo estimado para cada etapa”.

Entre os patrocinadores do evento estão a Samarco, responsável pelo desastre-crime em Mariana, em 2015; a Mineradora Herculano, envolvida no rompimento de uma barragem em Itabirito, em 2014, que resultou em três mortes e cinco feridos, afetando a bacia do Rio das Velhas; e a Anglo Gold Ashanti, que possui um histórico de acidentes de trabalho, incluindo um episódio em que dois trabalhadores morreram, e é alvo de uma ação do Ministério Público de Minas Gerais pelo acionamento indevido de uma sirene de alerta de rompimento em Santa Bárbara, gerando pânico entre os moradores.

Repercussão e repúdio

Após muita repercussão, a comunidade acadêmica da UFOP, incluindo a Reitoria, sindicatos e outros movimentos, publicaram notas de repúdio e uma carta aberta à diretoria da Escola de Minas. Entre as entidades que se posicionaram contra a interferência, está também a Frente Mineira de Luta das Atingidas e dos Atingidos pela Mineração (FLAMa-MG).

A Associação dos Docentes da Universidade Federal de Outro Preto (Adufop- Seção Sindical do ANDES-SN) se pronunciou sobre o caso: “o debate sobre rompimentos de barragens e seus impactos faz parte do cotidiano de alunos, servidores públicos e demais trabalhadores da Universidade e, sob a perspectiva de atingidos, não devem ser cerceados ou influenciados pelo poder econômico que tenta incidir sobre o fazer acadêmico”.

Após os protestos, a comissão organizadora enviou aos participantes um e-mail de retificação: “reconhecemos que a forma como a informação foi redigida gerou interpretações equivocadas, e assumimos total responsabilidade pelo erro”.

Capital privado interfere na universidade

A docente da UFOP e integrante do Grupo de Estudos e Pesquisa Socioambientais (Gepsa), Karine Carneiro, ressaltou que a tentativa de minimizar os desastres-crime das mineradoras e silenciar as comunidades atingidas é uma prática recorrente do setor. “Esse acontecimento, para além da censura nele contida, nos chama a atenção para a necessidade de discutirmos um fato que vem se tornando cada vez mais vultuoso nas universidades públicas de nosso país, a saber, a entrada do capital de grandes empresas como forma de financiamento, fomento, apoio e patrocínio de atividades acadêmicas, principalmente de pesquisas e eventos”, criticou.

Segundo a professora, em busca de legitimação técnico-científica, grandes empresas direcionam recursos expressivos para pesquisas do seu interesse, frequentemente impondo cláusulas de sigilo que comprometem a transparência. Para ela, essa prática desvia a universidade pública da sua função essencial, que é “produzir conhecimento com transparência e linguagem acessível para as pessoas e para a sociedade, com vistas a combater a desigualdade socioeconômica”.

A segunda vice-presidenta da Regional Leste do ANDES-SN, Clarissa Rodrigues, reforçou que a tentativa de censura revela um esforço para silenciar debates fundamentais sobre os danos causados pela mineração na região.

“Esse cerceamento não é só um ataque à liberdade de cátedra e de expressão, ele também explicita um projeto de submeter a universidade pública aos interesses das grandes empresas, nesse caso, as mineradoras. Esse fato reflete uma concepção de universidade, que é o oposto do que o nosso Sindicato tem defendido nesses mais de 40 anos de história”, disse.

(Assessoria de Comunicação do ANDES-SN com edições da ASPUV)

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